Uma Jornada Através do Tempo e das Guerras
O veleiro Zvezda, construído em 1934 na Alemanha com um propósito militar para a Segunda Guerra Mundial, carrega em seu casco de aço e convés de madeira as marcas de quase um século de história. Projetado originalmente por Hermann Wilhelm Göring, o barco serviu ao treinamento de militares alemães. Com o fim da guerra, o Zvezda foi transferido para a União Soviética como parte das reparações, onde encontrou um novo lar e foi adaptado para navegação com dois mastros, representando a Rússia em regatas internacionais.
Do Abandono à Recuperação: O Renascimento do Zvezda
Em 2019, um incidente nas Ilhas Canárias levou o Zvezda a um estaleiro de pesca, mas uma série de adversidades, incluindo problemas com vistos da tripulação russa e o fechamento de fronteiras pela pandemia de COVID-19, resultou em seu abandono. Foi o velejador brasileiro Juliano Leal, que reparava seu próprio barco em Fuerteventura, quem se encantou pela embarcação. Sua experiência em transporte marítimo o colocou em contato com Alexey Semenov, empresário russo que buscava levar o Zvezda de volta para casa. Com o custeio de Semenov e o trabalho de Leal e amigos, o veleiro foi levado até Vigo, na Espanha.
A Missão Impossível: Levar o Zvezda para a Rússia em Tempos de Guerra
A esperança de retorno do Zvezda foi novamente frustrada em fevereiro de 2022, com a invasão da Ucrânia pela Rússia. Sanções internacionais e o fechamento de portos mantiveram o barco inativo por mais três anos. Em setembro de 2024, a velejadora brasileira Izabel Pimentel, amiga de Juliano Leal, foi convidada para assumir a capitania de uma missão audaciosa: levar o Zvezda da Espanha para São Petersburgo, na Rússia, através de rotas complexas e perigosas. A ideia inicial de navegar pelo Mediterrâneo foi descartada devido ao fechamento das águas e à guerra no Mar Negro, levando à audaciosa decisão de buscar o caminho pelo norte, via Sibéria.
Uma Travessia Extrema pelos Mares do Norte
A tripulação, composta por Izabel Pimentel (capitã), Juliano Leal (marinheiro e contador) e Toni Cruz (responsável pela burocracia), partiu rumo a São Petersburgo. A jornada foi marcada por constantes reparos e imprevistos. A rota pelo oeste, apesar da resistência inicial da tripulação, foi crucial para evitar correntes violentas e ventos desfavoráveis na costa da Irlanda. As ilhas Shetland ofereceram um breve alívio com a luz do dia prolongada. No entanto, a tripulação enfrentou uma tempestade brutal, com ondas colossais e ventos uivantes que danificaram equipamentos essenciais, como cartas náuticas e o computador de bordo. O veleiro, projetado para uma tripulação maior, exigiu esforço redobrado da pequena equipe, que lutou contra o frio intenso e a precariedade das condições a bordo. Apesar do medo e da tensão, a resiliência do Zvezda, construído para resistir a conflitos, impressionou a todos, demonstrando sua capacidade de ancorar a estabilidade em meio ao caos. A intervenção da guarda costeira sueca e a habilidade de Toni em negociar permitiram que a rota fosse ajustada, evitando áreas de conflito. Finalmente, após 22 dias de navegação, o Zvezda chegou a São Petersburgo, encerrando sua jornada épica.
Próxima Aventura: A Antártica
Com a missão de levar o Zvezda cumprida, Izabel Pimentel já planeja sua próxima grande aventura: uma viagem à Antártica, que coincidirá com seu aniversário de 60 anos. A velejadora pretende cruzar a Passagem de Drake, celebrando a nova década em alto-mar, em uma expedição que promete ser tão desafiadora quanto sua recente travessia para a Rússia.
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