Navio Oceanográfico Histórico Professor Wladimir Besnard Afunda em Santos: Fim de Uma Era ou Novo Começo para Museu?
A icônica embarcação, pioneira em expedições antárticas brasileiras e com mais de 40 anos de serviço científico, aderna no Porto de Santos, reacendendo debates sobre seu abandono e a esperança de preservação.
O navio oceanográfico Professor Wladimir Besnard, um marco na história da pesquisa marinha brasileira e a primeira embarcação do país a navegar até a Antártica, começou a afundar no último dia 13 de março no Porto de Santos, litoral de São Paulo. O incidente, que viu a embarcação adernar e ficar inclinada no cais, lançou luz sobre denúncias de abandono por parte das autoridades e, paradoxalmente, reacendeu a esperança de sua recuperação.
Uma Trajetória de Mais de Quatro Décadas em Nome da Ciência
Construído na Noruega para atuar como um laboratório flutuante do Instituto Oceanográfico (IO) da Universidade de São Paulo (USP), o Professor Wladimir Besnard chegou ao Brasil em 1967. Por mais de 40 anos, a embarcação foi fundamental para expedições científicas, realizando mais de 260 cruzeiros oceanográficos entre 1967 e 2008. Essas missões permitiram a coleta de vastos bancos de dados para as ciências do mar no Brasil e exploraram diversas regiões do Oceano Atlântico, além de múltiplos pontos do litoral brasileiro e a Antártica.
No Programa Antártico Brasileiro (PROANTAR), o Besnard participou de seis expedições. Sua atuação no continente gelado, contudo, foi interrompida em 1988 devido à quebra do eixo do hélice na temida Passagem de Drake, evidenciando que a embarcação não era um navio quebra-gelo. Apesar disso, o navio continuou suas atividades científicas em outras áreas até 2008, quando um incêndio danificou a popa e o sistema de leme.
Do Abandono à Atenção Turística: Um Legado em Risco
Após o incêndio de 2008, o IO-USP alegou falta de verba para os reparos e modernização necessários. O navio foi então transferido para o Porto de Santos, sob a gestão do Instituto do Mar, uma organização sem fins lucrativos. Desde então, denúncias de abandono ganharam força, com o Sindicato dos Trabalhadores da USP (SINTUSP) e jornalistas especializados apontando que a embarcação deveria ter sido transformada em um Museu Oceanográfico flutuante. A visão de muitos é que a deterioração e o subsequente afundamento parcial são o resultado de anos de omissão e promessas não cumpridas.
Apesar do estado de deterioração, o Professor Wladimir Besnard chegou a se tornar uma atração turística no Parque Valongo, em Santos. A estrutura externa foi revitalizada por voluntários do Instituto do Mar, mantendo sua aparência original. O navio, embora não permitisse mais embarque, era um ponto de interesse para visitantes, incluindo estudantes, que podiam aprender sobre sua história com ex-profissionais.
Esperança de Recuperação e o Futuro do Ícone Marítimo
Diante do afundamento, a Autoridade Portuária de Santos (APS) afirmou que moverá ações para a recuperação da embarcação. O presidente da APS, Anderson Pomini, declarou que, independentemente da propriedade, é preciso agir. O plano é retirar o navio do canal de navegação e levá-lo a um estaleiro para avaliação.
Caso a recuperação seja possível, a APS, em conjunto com outras empresas, apoiará o processo. Se a restauração completa não for viável, partes da embarcação serão preservadas no Parque Valongo. Engenheiros e voluntários envolvidos no projeto de restauração expressam a esperança de que o incidente possa, paradoxalmente, acelerar as negociações e a burocracia para a restauração definitiva, dada a urgência da situação. A união de esforços de diversas empresas é vista como crucial para arcar com os altos custos da reforma, que superam a capacidade de uma única entidade, especialmente uma sem fins lucrativos.
O futuro do Professor Wladimir Besnard ainda é incerto, mas o incidente serve como um chamado para a ação. A torcida é para que as autoridades e o setor privado se unam a tempo de salvar este símbolo da pesquisa oceanográfica brasileira, garantindo que sua história e legado não se percam nas águas de Santos.
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