Comportamento Inusitado em Ambiente Controlado
Cenas raramente vistas em estudos sobre tubarões chamaram a atenção de cientistas: animais atravessando aros coloridos, empurrando tubos com o focinho e até batendo em objetos com a cauda. Essas interações, que poderiam ser interpretadas como brincadeira, foram registradas em um experimento científico real, publicado na revista Applied Animal Behaviour Science.
O Experimento e as Espécies Envolvidas
A pesquisa, realizada no Cabrillo Marine Aquarium, na Califórnia, acompanhou 13 tubarões de quatro espécies diferentes: tubarões-cornudos (Heterodontus francisci), tubarões-inchados (Cephaloscyllium ventriosum), tubarões-leopardo (Triakis semifasciata) e uma raia-da-califórnia (Caliraja inornata). Durante 12 semanas, cientistas introduziram objetos como lulas de plástico, aros e tubos nos tanques, antes e após a alimentação dos animais, documentando as reações em vídeo.
Motivação Além da Fome
As filmagens revelaram que os tubarões interagiam com os objetos de diversas formas, incluindo mordiscar e realizar movimentos semelhantes aos de caça, mas sem a presença de presas. Um detalhe intrigante foi o aumento dessas interações após os animais serem alimentados, sugerindo que a fome não era o principal motivador. Isso reforçou a hipótese dos pesquisadores de que os tubarões poderiam estar exibindo um comportamento lúdico.
Debate Científico e Limitações do Estudo
Apesar da interpretação inicial dos autores como “brincadeira”, o termo foi retirado do artigo final a pedido dos revisores. Estes apontaram que o estudo não mediu critérios essenciais para tal classificação, como a ativação de circuitos de recompensa, indicadores fisiológicos de prazer, níveis de estresse ou a distinção clara entre brincadeira e simples exploração. Os próprios pesquisadores reconheceram a falta de base experimental suficiente para sustentar tecnicamente o termo.
Novas Perspectivas sobre a Cognição dos Tubarões
Patrick Sun, coautor do estudo, expressou a crença de que um estudo mais rigoroso poderia comprovar a hipótese da brincadeira. Autumn Smith, principal autora, destacou a carência de pesquisas sobre comportamentos não predatórios em tubarões, como interações sociais, comunicação e cognição. Elisabetta Palagi, etóloga não envolvida no estudo, sugeriu que a motivação dos tubarões pelos objetos pode diminuir com o tempo, indicando um comportamento exploratório. Embora o estudo não comprove a brincadeira no mesmo sentido que em cães ou golfinhos, ele revela que os tubarões são mais curiosos, ativos e cognitivamente complexos do que se pensava, explorando o mundo ao seu redor, por vezes, aparentemente, por pura diversão.

Leave a Reply