Ilha da Trindade, Paraíso Isolado no Brasil, Revela “Rochas de Plástico” Moldadas por Tartarugas

Um Fenômeno Inédito em um Santuário Natural

Mesmo a Ilha da Trindade, um dos locais mais remotos do Brasil, a 1.100 km da costa do Espírito Santo, não está imune aos impactos da poluição humana. Um estudo publicado no Marine Pollution Bulletin revelou a formação de um inusitado tipo de rocha: as “plastistones”, compostas por plástico fundido a sedimentos naturais. O fenômeno, detectado pela primeira vez no Parcel das Tartarugas, na ilha, aponta para uma nova e preocupante forma de degradação ambiental.

Como as “Plastistones” se Formam?

As “plastistones” surgem quando resíduos plásticos, principalmente redes e cordas de pesca feitas de polietileno (HDPE), são submetidos a altas temperaturas. Esse aquecimento, seja por queima ou calor extremo, faz com que o plástico se funda aos elementos geológicos da ilha, como areia, conchas e rochas vulcânicas. O resultado é um material híbrido que se integra à paisagem.

O Papel Involuntário das Tartarugas-Verdes

A Ilha da Trindade, desabitada por civis e com acesso restrito, recebe lixo principalmente através das correntes marítimas e de atividades pesqueiras. No entanto, a pesquisa destacou um fator surpreendente: as tartarugas-verdes (Chelonia mydas). Esses animais, que habitam a região e migram por extensas áreas do litoral brasileiro, acabam por carregar detritos. Ao cavarem seus ninhos para a desova, as tartarugas reenterram o plástico que trazem consigo, misturando-o à areia e sedimentos. Esse processo acelera a formação das “plastistones” e aumenta a sua permanência na ilha.

Consequências Ambientais e Geológicas

O acúmulo de plástico nas áreas de nidificação das tartarugas-verdes é alarmante. Em 2019, uma área de 12m² já estava coberta por essas rochas plásticas, que, com o tempo e a ação das ondas, fragmentam-se em microplásticos. Esses fragmentos, além de poluírem a areia, liberam microfibras e compostos tóxicos no ambiente. A “interação geológica” do plástico, com enriquecimento por cálcio, sugere que o lixo está se tornando parte permanente da história geológica da ilha, podendo perdurar por milhares de anos. Os pesquisadores alertam para o risco de ingestão desses microplásticos pela fauna local, incluindo peixes, aves e caranguejos, além das próprias tartarugas.

Um Alerta para Políticas Públicas

Os resultados do estudo na Ilha da Trindade reforçam a urgência de políticas públicas eficazes para o gerenciamento de resíduos plásticos e ações coordenadas de limpeza. A prioridade deve ser dada a áreas de preservação e habitats de vida selvagem, como a ilha, que, apesar de sua localização remota, sofre com o legado da poluição humana. A formação das “plastistones” pode, inclusive, ser considerada um dos marcadores da era do Antropoceno, a época geológica marcada pela influência humana no planeta.

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