Histórico Preenchido: A Jornada Triunfal da Tripulação Feminina
Uma cicatriz que persistia há quase três décadas na história da vela foi finalmente fechada. Em um feito notável, a tripulação 100% feminina, liderada por Alexia Barrier a bordo do veleiro IDEC Sport, completou uma volta ao mundo sem escalas em um multicasco. A aventura, que durou 57 dias, 21 horas e 20 minutos, não apenas estabeleceu um novo tempo a ser batido, mas também representou uma reparação histórica para o esporte feminino.
Um Sonho Reinventado Após 27 Anos de Espera
Em 1999, o sonho de Tracy Edwards e sua equipe de dez mulheres de completar uma volta ao mundo sem escalas foi tragicamente interrompido quando o mastro de seu veleiro cedeu. Por 27 anos, o vácuo de uma tentativa bem-sucedida permaneceu, até que Alexia Barrier e sua equipe de oito velejadoras de sete nacionalidades distintas reascenderam a chama. A conquista do IDEC Sport, embora não tenha batido o recorde do troféu Júlio Verne — atualmente detido pelo Sodebo Ultim 3 com 40 dias —, solidificou seu lugar na história como a primeira tripulação inteiramente feminina a alcançar tal feito em um multicasco.
Desafios Superados: Da Maré de Azar à Resiliência Inabalável
A jornada não foi isenta de percalços. Logo no início, no Atlântico, um defeito no “gancho” que fixa a vela mestra ao mastro forçou a tripulação a realizar ajustes manuais de centenas de quilos de velas a cada mudança de vento, uma tarefa árdua e de alto risco. A situação se agravou no Oceano Pacífico, quando uma rede de pesca gigante se enroscou na quilha, reduzindo drasticamente a velocidade da embarcação e forçando uma perigosa manobra de ré para remoção. Para piorar, a quilha ficou presa, obrigando a equipe a continuar a viagem sem esse componente vital.
Cabo Horn e a Reta Final: A Prova de Fogo da Tripulação
A passagem pelo Cabo Horn apresentou ondas de 8 metros e ventos de 50 nós, testando a coragem e a habilidade da tripulação, que já navegava com a vela mestra danificada. A superação deste marco, antes mesmo de completar a volta ao mundo, já era inédita para uma tripulação feminina em multicasco sem escalas. Na reta final, no Atlântico Norte, a vela mestra rasgou-se completamente, exigindo improviso com costuras para continuar a navegação sob ventos fortes. A perda da quilha tornou o piloto automático instável, forçando revezamentos manuais no leme até a linha de chegada. Mesmo a chegada da Tempestade Ingrid foi enfrentada com configurações mínimas de velas e turnos exaustivos. Nada disso, contudo, impediu que essas oito mulheres reescrevessem a história da vela.