Raphael Garcia Refaz Travessia de Amyr Klink e Revela: ‘Liguei para ele antes de partir’
Jovem de 34 anos repetiu o feito histórico de remar sozinho pelo Atlântico Sul em 136 dias, inspirado por livro de Klink, e detalha os desafios e aprendizados da jornada.
Em 1984, Amyr Klink marcou seu nome na história ao atravessar o Atlântico Sul a remo, em solitário, em 100 dias. Quase quatro décadas depois, Raphael Garcia, de 34 anos, acaba de replicar essa façanha, completando a mesma jornada em 136 dias. Inspirado pelo livro de Klink, “100 Dias entre Céu e Mar”, Garcia decidiu encarar o oceano, tornando-se, segundo Klink, a primeira pessoa a refazer o trajeto em solitário.
Do Zero ao Navegador Experiente
Apesar da formação em Engenharia Eletrônica pela Poli-USP, Raphael Garcia não possuía experiência prévia com navegação ou com o mar. Seu contato se limitava a idas à praia. “Meu contato com o mar se limitava a ir à praia no verão. Fazer esse projeto foi uma escola para mim, comecei do zero”, relatou Garcia. Ele se dedicou intensamente aos estudos de marinharia, navegação celestial e à construção de seu barco, o Sater. Voluntariou-se em viagens costeiras pela Nova Zelândia e realizou uma travessia desafiadora de 20 dias entre o norte da Nova Zelândia e Tonga, que serviu como um valioso aprendizado prático.
O Contato com Amyr Klink e as Diferenças Tecnológicas
Dois anos após decidir pela travessia, Garcia contatou Amyr Klink para pedir conselhos. “Eu falei ‘tô pretendendo refazer sua viagem, já tô com projeto, e gostaria de alguns conselhos seus’”, relembrou Raphael. A conversa, que durou quase uma hora, foi fundamental. O barco Sater foi inspirado no I.A.T. de Klink, mas com evoluções tecnológicas. Enquanto Amyr levou água potável em grande quantidade, Raphael contou com um dessalinizador. A navegação, que para Klink se baseava no sol e no horizonte, para Garcia contou com GPS, rádio VHF e AIS. Um conselho crucial de Klink foi a instalação de “bordas falsas” no Sater, elevando a segurança operacional.
Um Atlântico Diferente e a Preparação Logística
Apesar de seguir uma rota similar, Raphael Garcia encontrou um Atlântico mais desafiador, com tempestades mais frequentes e duradouras, que o forçaram a permanecer na cabine por dias. A preparação da alimentação foi outro grande obstáculo. Devido à restrição de sódio, a dieta se resumiu a arroz, carnes e vegetais desidratados, além de refeições prontas. “O barco era 90% comida e alguns equipamentos”, descreveu.
Sigilo e a Emoção do Encontro
O projeto foi mantido em sigilo absoluto por três anos, nem mesmo a família de Raphael sabia da empreitada. A decisão de contar aos pais veio apenas em 2025, e a reação inicial foi de desaprovação. O sigilo se estendeu à mídia e a patrocinadores, pois Garcia desejava a tranquilidade para focar na viagem. O feito foi financiado inteiramente por ele. Ao chegar em Salvador em 22 de agosto, Raphael foi recebido por Amyr Klink, um momento que ele descreveu como “a cereja no topo do bolo”, simbolizando o elo entre duas gerações de aventureiros.
Livro, Documentário e a Filosofia de Não Desistir
Assim como Amyr Klink, Raphael Garcia pretende registrar sua experiência em um livro, com previsão de lançamento até o fim de 2026, e em um documentário. Para ele, a travessia ensinou sobre a intersecção entre sonho e determinação. “Uma viagem desse porte é os dois ao mesmo tempo”, afirmou. A filosofia de não desistir foi essencial nos momentos mais críticos, onde a prioridade era simplesmente sobreviver. A jornada de Raphael Garcia é um testemunho de como a paixão, aliada à perseverança, pode transformar sonhos grandiosos em realidade.